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UMA NOITE DE TERROR

contosdosidao
4 de ago.
7 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

NUNCA MAIS SERÁ ESQUECIDA!!!
NUNCA MAIS SERÁ ESQUECIDA!!!

Ao abrir a porta dos fundos da casa de praia, um susto. Em frente à porta, na penumbra do pátio interno ao terreno, um homem encapuzado com um facão reluzente. Aquela longa lâmina cortante quase tirou a minha vida. Foi um episódio sinistro, você irá entender em detalhes.


Faz dez anos que a noite mais longa que vivi, e que mais parece um pesadelo em nossas memórias, terminou. Lembro-me bem que era uma sexta-feira comum de final de verão. O abafado costumeiro das últimas noites no auge dos dias de calor já não nos incomodava tanto quanto nos dias de carnaval, poucas semanas antes do acontecido. O silêncio profundo reinava na vizinhança. Poucas casas estavam ocupadas, os veranistas já haviam retornado para as suas cidades.


Eu e minha esposa estávamos em nossa casa de praia, no litoral norte do Rio Grande do Sul. Aquele balneário, nesta época, voltara a ser um local perfeito para nos trazer silêncio e tranquilidade. A poucas horas desta calmaria, ele se tornaria um local indigno de uma noite longa e tenebrosa.

Naquela noite, como de hábito depois do jantar, comecei a preparar-me para o descanso. A porta de nossa cozinha, que dava acesso aos fundos da casa, estava fechada. As persianas estavam à meia altura em nossa sala de estar. As portas de correr da garagem do carro, que transformávamos em ambiente social anexado à nossa sala de estar, estavam trancadas. Antes de passar o ferrolho na porta da garagem que dava para os fundos da casa, fui conferir se as luzes da parede que iluminavam o quintal estavam acesas.


A precária iluminação pública no exterior da casa, como de costume, deixava um lusco-fusco adequado ao nosso silêncio, que se completava com balançar das sombras dos pinheiros da rua e a brisa refrescante que soprava do mar a cerca de um quilômetro de distância.

Ao abrir a porta para checar a luz do quintal, colado ao marco da porta havia um ser humano das trevas ali parado, como se estivesse na espreita. Só consegui perceber sua silhueta envolta num casaco escuro, e numa camiseta enrolada que cobria seu rosto inteiro, como se fosse um fantasma vindo de outra dimensão. Tomei um senhor susto e dei um passo para trás.


O delinquente jogou a porta contra mim, e no começo de nossa luta corporal, ele conseguiu me empurrar e avançar para dentro da casa. O chinelo que usava me fez escorregar e ir a primeira vez ao chão.

Com a lâmina do longo facão voltada para mim, o delinquente passou a exigir todos os pertences, os meus e da minha mulher, e clamava por dinheiro. Entreguei tudo o que eu tinha na minha carteira em cima da estante. Minha esposa entregou algumas notas de cem reais, e ele pediu mais. Ela disse que não tinha mais nada naquela casa.

As ameaças continuavam mesmo com a coleta de nosso dinheiro e alguns de nossos pertences que estavam na sala de estar. O homem levantou a lâmina do facão, novamente, e gritou para eu me sentar no sofá da sala. Eu sentei. Minha esposa estava na porta do quarto, gesticulando para o bandido de que já bastava, tudo estava resolvido e ele podia ir embora.


O pesadelo continuou a piorar a cada respiro. O bandido apresentava sinais de que não estava lúcido. Seu olhar por dentro do pano apertado que cobria sua cabeça mostrava que ele não conseguia fixar a atenção a qualquer resposta. Suava entre os olhos e vociferava palavras desconexas que nos intimidavam. Alguma droga ilícita e forte havia sido usada por ele; eu tive essa impressão desde o começo.

Foi neste instante que ele começou a ameaçar às nossas vidas. Falava alto que iria nos matar sem dó, e que agora queria o meu carro que estava estacionado nos fundos, no quintal de casa. Lembro que minha esperança de resolver aquele caso estava voltada à janela semiaberta da sala que dava para a rua. Imaginava que, com os brados do ladrão e nossas respostas berradas, alguém poderia passar pela rua e nos escutar. Mas a rua era pouco movimentada e, naquela hora, quase ninguém passava por ela.


O ladrão queria mais. Além do carro, ele queria que a gente fosse junto com ele. Um sequestro relâmpago, raciocinei? Ele não havia pedido cartão de créditos para fazer os saques na rua. Ele queria o carro e a gente junto! Estava decidido a isso. Foi neste momento que, eu lembro, uma ideia nítida não saía de minha cabeça: “Se a gente sair com ele no carro, nós não voltaremos mais. Não posso deixar isso acontecer”. Basta.

Pulei do sofá e entrei em luta corporal com o homem. Ele, algumas décadas mais jovem e com uma força sobrenatural dos tóxicos consumidos que o impulsionavam, apunhalou-me por algumas vezes pelo corpo. Foram três facadas dadas, uma na minha mão, outra no peito sem profundidade, e a mais grave e certeira atingiu meu antebraço, causando um corte profundo que rompeu algumas das minhas artérias e despejou muito sangue no chão.


O invasor, foi atingido uma vez no peito, e bateu em retirada. Tentou fugir pelo ponto que ele havia entrado, os fundos da casa, que era guardada por um muro alto de três metros. Mas havia uma surpresa para ele. Como se houvesse descido dos céus, outro homem com uma arma de fogo estava em cima do telhado da casa ao lado, e com completa visão do meu quintal, deu ordens para o bandido se entregar. O bandido fez uma tentativa de pular o muro em fuga, e não conseguiu passar pelo obstáculo. Seu sangue escorria na parede branca, o que deixava a superfície mais instável para dar o seu sumiço.


Sem saída, o bandido deu meia volta e, num movimento brusco, voltou-se a carga contra mim que estava assistindo a cena. Reconheci o homem no telhado. Era meu vizinho da frente, um policial militar. Ele, sem pestanejar, deu o primeiro tiro contra o meliante ensandecido. Ele caiu a poucos metros de mim, mas conseguiu levantar. Veio um segundo tiro, o terceiro, ele cambaleou, e seguiu em minha direção com o facão levantado para me alvejar. O quarto tiro foi o que o derrubou novamente. Ele começou a gemer no meio do meu gramado e, em poucos segundos, perdeu a consciência.

Não demorou muito para chegar uma viatura da polícia. Uma equipe entrou na casa e se deparou com uma cena de terror. Poças de sangue na sala e na garagem, um homem caído no gramado dos fundos, e eu ferido com alguma gravidade, com um pano de chão enrolado no braço para estancar a perda de sangue ocasionada pela facada. O sangue jorrava no antebraço, e eu sentia que estava ficando tonto. A situação começava a piorar a cada minuto perdido.


A viatura me levou com rapidez para um ambulatório médico local. Os médicos analisaram a extensão do ferimento e me orientaram a procurar um hospital maior, já que somente um cirurgião poderia me socorrer. A viatura me levou a outro município, a alguns quilômetros de casa, até encontrar um hospital com algum cirurgião de plantão naquelas primeiras horas da madrugada, algo raro. Havia um cirurgião e uma enfermeira já avisados sobre o meu caso. Eles me aguardavam, no segundo hospital visitado, para me levar à sala de cirurgia. Após algumas horas após o procedimento de sutura e medicação, uma ambulância me levou novamente à minha casa.  A cena do crime estava montada.


Já estava amanhecendo quando retornei. Um veículo do IML estava estacionado diante de meu portão. Os peritos finalizavam seu trabalho para o relatório policial. O bandido havia morrido. Comecei a entender o que tinha se passado depois daquela noite de terror.

Mais cedo, com os gritos e xingamentos dentro de minha casa, na discussão grosseira que tivemos com o bandido, a vizinha da frente que era esposa do policial, percebeu que alguma coisa grave se passava naquela residência. Seu marido estava chegando do plantão noturno para jantar naquela mesma hora. Ela avisou o que havia ouvido e visto: gritarias e, pelas frestas da janela de minha sala de estar, um movimento estranho de pessoas numa espécie de briga corporal. Uma briga de casal ou algo mais? Não sabia. Foi aí que ele sacou seu revólver, e resolveu subir no telhado do lado de minha casa para averiguar o que se passava por aqui.


O homem que tentou me matar ainda estava estatelado no meu quintal, já morto, depois de levar três tiros certeiros. Percebemos que ele não era um sujeito estranho à nossa convivência. Ao retirarem a camiseta que cobria seu rosto, veio o espanto: tratava-se do filho de uma conhecida prestadora de serviços na região. Ela cuidava de muitas casas após as altas temporadas de verão, inclusive a minha! O mesmo homem fazia a segurança privada de um banco no nosso balneário, e estava envolvido em alguns roubos de casas na região. Usuário de drogas, ele havia pulado o muro do meu quintal para cometer o crime e nos agredir.


Fui convidado pelo delegado de polícia para prestar depoimento. Ao perceberem que o sangue escorria das minhas ataduras para os dedos, os policiais resolveram me levar de volta ao ambulatório médico por precaução. O corte tinha sido profundo, e a recuperação seria delicada. O meu depoimento foi adiado para a outra semana.

Os veículos de comunicação produziram, nos dias que se seguiram, algumas matérias televisivas sobre o caso. Foi descoberto pela polícia que havia outro meliante na rua de trás, de motocicleta, dando cobertura para o roubo na minha residência. Outros ataques destes bandidos aconteceram no litoral nos meses anteriores. Eles só roubavam pertences, dinheiro e objetos de valor de suas vítimas. O destino dos objetos roubados era a compra de drogas. Na grande maioria das vezes, as ações covardes aconteciam através de ataques de surpresa e com uso de ameaças e violência física.


Em nenhum dos casos anteriores, o bandido havia pedido o carro e tentado realizar um sequestro das vítimas. Apenas na minha vez de sofrer com a quadrilha. Por que ele pediu pelo carro, e por que ele queria que nós fossemos juntos? Até hoje não sabemos os reais motivos.

Após o acontecido, temos sempre os portões de acesso a carros e pedestres fechados, a qualquer hora do dia e da noite. Instalamos algumas câmeras de segurança em nosso terreno. Ao entardecer, sempre trancamos as portas da casa e o acesso ao quintal dos fundos.

Que tenha sido a última invasão à nossa casa. Não desejamos mais reviver aquela noite de terror.


Por fim, apresento a vocês alguns alertas que julgo importantes:

- Não abra a porta sob qualquer pretexto não identificado;

- Se ocorrer um ruído a noite desligue as luzes internas da casa, e tente entender o que está ocorrendo na parte externa;

- Fique muito atento com as entregas de comidas e mercadorias, sobretudo àquelas não solicitadas;

- Alerta para miados e latidos de animais estranhos;

- Instalar dentro do possível, alarmes monitorados e câmeras em pontos estratégicos;

- Nunca reaja sem ter a plena certeza de sucesso da ação.


Ao policial vizinho e amigo agradecemos o relevante serviço que ele prestou à nossa família, merecendo o reconhecimento de seus superiores, outros moradores e de tantas ocorrências em sua vida profissional. Com certeza, ele e a sua equipe já evitaram que muitas outras famílias fossem novas vítimas no litoral. 

Essa noite de terror nunca mais será esquecida por nós.

 

Texto Sidnei Oscar Duarte

Revisão e edição: Ulisses Corrêa Duarte

 
 
 

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