NA ALÇA DE MIRA: Foi por pouco! - Parte 1
Atualizado: 28 de set.

Uma brincadeira na internet despertou uma lembrança de um incidente real do qual fiz parte quando prestei o serviço militar.
O fato ocorreu na década de 70. Na época eu me alistei para servir ao Exército brasileiro. Fui um dos primeiros da família a servir nas Forças Armadas.
Ingressei no quartel em 1974. No início, durante os primeiros meses, não podíamos deixar o quartel. Essa foi a primeira lição que aprendemos. Como já possuía habilitação, fui designado para ser o responsável por um jipe cujo número jamais esqueci “EB-19219.
Como eu sempre tive uma paixão por carros, eu cuidava da viatura com muito zelo. Os meus superiores reconheceram o meu esforço e, por isso, confiaram a outros veículos: uma Aero Willian, e, algum tempo depois, caminhões e uma tombadeira. No próprio quartel havia um posto de combustíveis completo. Uau, eu tinha 18 anos e aquilo foi tudo o que eu precisava.
Pela manhã, o café era seguido de atividades designadas pelos sargentos. Às 11 horas, educação física, depois almoço, pausa e retorno às instruções dos superiores. O tempo voava. Se não estou enganado, às 17 horas ocorria a parada, quando todos os soldados do esquadrão se reuniam para ouvir os acontecimentos do dia. Recordo-me da quinta parte “justiça e disciplina". Neste momento, todos ficavam atentos, pois seus nomes poderiam ser mencionados em relação a alguma ação, seja ela positiva ou negativa.
Depois que os soldados eram dispensados, podíamos participar de atividades esportivas, especialmente o futebol de salão (atualmente conhecido como futsal). Depois dos primeiros meses, já podíamos voltar para nossas casas ao final do dia ou permanecer no quartel.
Como eu não morava muito longe, preferia ir para casa.
No dia seguinte, a apresentação estava marcada para às 7 horas da manhã.
Minha querida mãe cuidava do meu uniforme, mantendo-o sempre impecável. Eu mantinha os coturnos e o cinto bem cuidados, sempre lustrados e com um brilho intenso. E o tempo continuou passando conforme os mesmos padrões: trabalho, treinamento físico, estratégias, instruções sobre armas, linha de tiro e por aí vai.
Alguns meses depois, meus superiores me apresentariam um novo desafio. Não sei por qual motivo fui promovido a ter, além dos veículos que já estavam sob minha responsabilidade, mais uma caminhonete veraneio.
Aquele carro não tinha as cores de todos os veículos militares. Possuía uma placa branca e era um veículo descaracterizado que servia ao alto comando.
Houve dois acontecimentos curiosos. Um deles eu estava na linha de tiro, onde os soldados se deitavam lado a lado, e os alvos, embora eu não me lembre da distância exata, estavam bem longe. A arma empregada era um fuzil de cano longo denominado “FAL”, que, traduzido, significa “fuzil automático leve”, de calibre 7.62, capaz de atingir um alvo a uma distância de 1.500 metros. A primeira aula de tiro eu não compreendi o motivo de termos de usar um capacete de aço.
Com o primeiro comando de mira e tiro livre, o soldado à minha esquerda se adiantou e disparou, e a cápsula que saiu de sua arma ricocheteou em meu capacete, distraindo-me do alvo. Mas, afinal, era algo que parecia ser normal no treinamento.
Em um determinado momento, o comandante da unidade me chamou e me designou para uma tarefa que parecia fácil:
— Duarte — que era o meu nome de guerra — vou te encarregar de uma missão.
— Pois não coronel.
— Leve uma senhora, que você conhece, para onde ela pedir. Espere por ela no local, e depois a traga de volta para casa com segurança.
— Certamente, senhor.
Passou o endereço, peguei a veraneio e, como padrão e por segurança, era necessário portar uma pistola ponto 40 com seis munições e um carregador extra. Na viagem de ida para o destino, tudo ocorreu sem problemas. Ela entrou em uma residência e eu permaneci esperando dentro da viatura.
Logo em seguida, um homem veio correndo em minha direção. Quando ele chegou, visivelmente apavorado, afirmou que sua filha estava se sentindo muito mal e que precisava levá-la a um hospital. A norma vigente na época impedia o atendimento daquele pedido. Ele foi bastante insistente. Eu mencionei que poderia solicitar a ajuda de outra pessoa, uma vez que eu não estava disponível para ajudar.
Ele ficou muito irritado, e não tinha ideia de que eu estava de serviço militar.
Ele correu de volta para sua casa. Pouco tempo depois, o mesmo homem voltou imediatamente com um facão na mão. Imediatamente, abri o porta-luvas com um rápido toque de botão e peguei a pistola.
Desci do veículo e dei a ordem para que ele parasse, mas isso não foi atendido. Nessa situação, não tive outra opção a não ser disparar um tiro para o alto, que era o procedimento padrão. Mesmo assim, ele não parou.
Não havia outra alternativa. Estava numa situação de sobrevivência entre ele e eu.
Apontei a arma em direção a sua cabeça e puxei o gatilho. Naquela época, a orientação para enfrentar um momento difícil era neutralizar o ataque do oponente. O recuo daquela pistola era imenso. Com o tiro o homem girou e caiu. Pelo som do disparo daquela residência, várias pessoas saíram, incluindo a senhora que eu estava acompanhando.
Recebi diferentes questionamentos daquela senhora sobre o que tinha ocorrido. Expliquei de forma breve, e fui checar a vítima que estava inconsciente no chão. Percebi que havia sangue da cintura para baixo. Minha intenção era atingir outra parte.
A senhora questionou o que eu havia feito e, de imediato, respondi:
— Agora que a senhora está segura, levaremos essa pessoa e sua filha para o hospital militar. — Assim foi realizado.
A vítima do tiro sobreviveu e sua filha recebeu atendimento.
Levei a senhora até a sua residência e guardei a viatura no quartel.
No dia seguinte, o Coronel me chamou e solicitou um relato minucioso do ocorrido.
— Duarte. Descreva com detalhes o que aconteceu.
Após a explicação, o coronel disse:
— Você está me dizendo que apontou para a cabeça da pessoa e o tiro atingiu a coxa?
— Foi exatamente isso, coronel — respondi.
— Portanto, Duarte, você desempenhou sua tarefa com responsabilidade.
Nos próximos dias você retornará à linha de tiro até entender que tanto a pontaria quanto o tipo de disparo devem ser perfeitos. — E o Coronel me dispensou da reunião.
No final do período de 12 meses após o acontecido, fui chamado pelo comandante, que me incentivou a seguir a carreira militar, entendendo que eu tinha muito potencial. No entanto, era uma quantidade significativa de compromissos e, no fim, eu não aceitei.
O comandante deixou as portas abertas caso houvesse uma mudança de rumos em minha vida profissional. No ano de 1974, no último dia de serviço militar, fui agraciado com todas as homenagens e prêmios em reconhecimento aos diversos feitos que alcancei ao longo daquele ano.
Meu irmão, que duvidava do meu êxito no Exército, ficou impressionado com o resultado e, como premiação, me presenteou com o seu carro.
No entanto, a narrativa não termina aqui.
Há uma segunda parte que narrarei em outro capítulo. Aguardem!!!
Autor: Sidnei Duarte
Revisor: Ulisses Duarte




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