UM ELEFANTE NA FEIRA DO LIVRO

Um partido político contratou a empresa onde eu trabalhava, há muitos anos atrás, para organizar um enorme evento em uma capital brasileira. Daquele dia, nos foi solicitado um pedido no mínimo bizarro. O responsável pelo evento desejava um elefante grande, pesando mais de quatro toneladas.
Devem questionar: com que finalidade? Era uma comparação bastante peculiar, mostrar aos cidadãos que a máquina pública era muito pesada, igual a um elefante. Me deparei com um grande problema: como arranjar um bicho desse tamanho para um evento político?
Fizemos contatos por telefone (pois naquela época a maravilhosa internet não existia) para tentar encontrar um lugar onde pudéssemos “alugar” um elefante. Fiquei sabendo que um circo tinha um elefante. Certa manhã, dirigi-me ao circo para conversar com o proprietário.
Compartilhei algumas informações sobre o evento e a extrema urgência de nossa necessidade. Planejávamos levar o imenso animal para uma manifestação em frente à Prefeitura daquela capital. Simultaneamente, uma magnífica feira de livros de rua ocorreria a poucos metros daquele evento. O elefante não se aproximaria da feira, ficaria no largo da Prefeitura por no máximo duas horas.
O dono do circo inicialmente fez uma pequena expressão de descontentamento, mas ao ouvir toda a nossa proposta, começou a rir de forma sarcástica. E ele disse: -Você pirou?! Este elefante não sai daqui.
Voltei para a empresa um tanto constrangido, após a recusa a uma proposta absurda. Depois de mais uma conversa com os organizadores do evento, obtive um aviso de que era tudo ou nada: - Contrate esse elefante a qualquer preço, senão não realizaremos o evento com sua empresa!
No dia seguinte, voltei ao circo. O dono me interrompeu assim que viu que eu tinha chegado: - Já te avisei que ninguém tira o meu elefante.
]Então eu questionei o homem:
- Quantos espectadores seu circo consegue acomodar em um espetáculo?
Ele disse: - Há três mil lugares à disposição, mas raramente estão todos ocupados.
Esta foi a minha oportunidade: - O valor do aluguel do seu elefante, juntamente com o domador que o acompanha, nos permitiria arcar com o custo de dois espetáculos lotados em seu circo.
- É um pouco – disse o dono.
- Disponibilizo três lotaçõpes. O que você acha?
O dono do circo parou de sorrir e começou a ponderar sobre a interessante proposta.
Expliquei a ele que seria apenas por algumas horas, que tudo estaria sob controle, seria rápido e bem planejado. Além de remunerar três lotações circenses, nós pagaríamos o transporte do animal em um caminhão jamanta, além de uma quantia extra não oficial para ele e para o domador, que seria o responsável por acompanhar o elefante.
Ele ficou entusiasmado: - Então, eu concordo. Contrato assinado!
No dia em que o elefante foi transportado, a jamanta só conseguiu encontrar um lugar apropriado para descarregar a carga animal no setor final da feira do livro, o que era bastante distante do local que havia sido combinado.
Foi complicado levar o elefante a pé pelo Centro da cidade por várias quadras. Quando chegamos ao largo em frente à Prefeitura, conseguimos isolar o animal com cercas de metal, aquelas usadas em festivais de música.
O domador pediu para o animal alguns baldes de água, adquiridas previamente, para saciar a sede em decorrência do calor naquele dia. Já havia um palco montado e um DJ animava o ambiente com músicas alegres antes dos discursos dos políticos.
Depois de se saciar s sede, o elefante, irritado com a celebração animada que acontecia entre os militantes, começou a espalhar água por todos os lados. Assemelhava-se a um poderoso chafariz giratório jorrando água sobre a plateia. As pessoas estavam desfrutando bastante aquele ambiente entre suas bandeiras políticas. Estiveram em êxtase com as aventuras do elefante, apesar de estarem completamente molhados.
Um pouco apavorado, o domador se aproximou de mim para perguntar se haveria queima de fogos de artifício durante aquele evento. Eu concordei, mas esclareci que os fogos não eram de nossa responsabilidade. Ele nos avisou que temia que o pior acontecesse, e explicou que os elefantes se assustavam muito com qualquer som alto, e poderiam entrar em pânico.
Preocupado, conversei com os responsáveis pelos fogos de artifício, que estavam montados na cobertura de um edifício muito alto. Estabelecemos um horário específico para a explosão do material, que ocorreria meia hora após nossa partida com o elefante.
Uma longa série de discursos políticos acalorados, quase como leões soltos em uma selva de pedra, era intercalada por apresentações musicais triviais. Era tudo o que nos ocupava: o elefante, o controle do relógio.
Finalmente, chegou o momento de deixarmos o local. Chamei o domador e sinalizei para que saíssemos de lá; ainda restavam trinta minutos até a detonação dos fogos de artifício. Deixamos o largo e chegamos à esquina de um espaço público onde estava o elefante adestrado. Aquele lugar servia como um ponto de acesso para uma grande multidão que se dirigia à outra grande atração do momento, a famosa feira do livro.
Já havíamos acertado com o caminhão jamanta onde iríamos embarcar, numa ruazinha lateral à feira do livro. O elefante, situado na esquina, tornou-se amigo de algumas crianças que estavam saboreando pipocas vendidas nos carrinhos de rua. O elefante tinha uma grande paixão por pipoca. Ele abria a boca de forma exagerada, enquanto as crianças empolgadas atiravam punhados de pipoca na sua imensa língua voraz. Ele mastigava os flocos pegajosos e pedia mais.
O planejamento que havíamos traçado no início começou a desmoronar. Devido ao atraso do caminhão jamanta, o contratante do evento, percebendo nossa falta de definição, exigiu que o elefante retornasse até o ato político, uma vez que o animal de várias toneladas havia se tornado o principal atrativo da festa.
Alertamos o cliente quanto ao sério risco de manter o animal naquela hora. Ele, bastante confiante em sua posição de autoridade, nos garantiu que os fogos de artifício só iriam explodir com a sua permissão. Tudo era uma grande farsa.
Quando começamos a voltar para o ato, andamos uns duzentos metros e o foguetório começou a estourar no céu. Em questão de segundos, o elefante girou rapidamente, derrubou o domador que o conduzia e saiu correndo em direção à rua principal da feira do livro.
O domador perseguiu o animal que fugia e, com uma vara longa apontando precisamente em um local específico da imensa orelha do elefante, começou a berrar com o animal em uma língua que ninguém entendia.
O elefante reduziu seu passo, e eu tentei auxiliar o domador segurando o rabo do animal para que ele parasse. Isto não foi uma boa ideia. Fui arrastado como um rebocador sem qualquer possibilidade de sucesso, até ser lançado no meio da calçada. Os centenas de visitantes da feira do livro, observando a cena, começaram a se afastar para que o elefante pudesse passar. O início foi marcado por uma certa agitação e muito barulho entre os estandes de livros e os expositores das obras literárias.
Para a alegria do público presente, o elefante se posicionou precisamente no lugar onde havia recebido pipocas das crianças. O domador, proferiu um insulto em uma língua que eu não compreendi, antes de conseguir controlar a ira do seu animal.
Observei que alguns indivíduos haviam esquecido ou abandonado certos itens, que agora permaneciam espalhados pela calçada: alguns livros amassados, pacotes de pipoca pela metade e até mesmo um tênis usado, apenas um pé. O domador dominou o elefante e o levou para uma rua lateral ao ver, enfim, o caminhão jamanta chegar.
Uma nova explosão de fogos foi detonada. O murmúrio recomeçou. O elefante correu em linha reta e chegou a uma avenida movimentada. Felizmente, um policial militar havia avistado a situação minutos antes e interrompeu o tráfego de veículos. O elefante, livre de impedimentos, correu até um posto de combustíveis, derrubou algumas placas de trânsito e entrou na área onde a jamanta estava estacionada.
O elefante, confuso com o barulho incessante, entrou na jamanta, que tinha a rampa de acesso abaixada, voltando sozinho para o mesmo caminhão de onde viera. Surpreendeu a todos a habilidade do elefante em encontrar o caminho de volta para casa. A memória era, de fato, comparável à de um elefante. A jamanta partiu e rapidamente desapareceu no horizonte, transportando o grande animal para seu circo.
Após todo aquele choque, retornei ao local do evento. Ele tinha finalizado. O então cliente não estava disposto a trocar nem mesmo um cumprimento comigo durante todo o retorno. Ele nunca mais me chamou para trabalhar. Não tive nenhum novo contato com o dono do circo, e muito menos com o domador daquele dia fatídico.
Há quem ainda recorde daquela famosa feira do livro em que ele apareceu, aterrorizando as ruelas do Centro da cidade, um imenso elefante. Alguns acreditavam que isso era apenas mais uma lenda urbana criada por alguém em tempos passados. Por outro lado, a referida máquina pública excessivamente pesada continua a existir para aqueles que desejam acreditar nela.
Autor: Sidnei Duarte
Revisor: Ulisses Duarte




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