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O UIVO E O INCÊNDIO

contosdosidao
25 de ago.
2 min de leitura

Eu reproduzi o uivo do cachorro do meu vizinho, poucos dias antes da catástrofe, há mais de quarenta anos.

 

Meu filho pequeno, que na época era apenas um bebê de poucos meses, sorria sempre que o cachorro uivava. Se imitasse como o cão fazia, seria maus presságios. Minha avó me alertou para não fazer aquilo. - Não faça isso, é mau agouro.

 

Naquela noite fria e chuvosa do inverno gaúcho, em 15 de julho de 1983, o cão do vizinho não uivou como era habitual. Noite passada o bebê fez xixi no colchão durante a troca de fralda.

 

Empréstimo de um aquecedor elétrico da casa da minha mãe. No interior do quarto, a estufa realmente estava secando o colchão.

A estufa foi posicionada sobre o estrado da cama, a uma distância adequada do colchão que estava encostado na parede.

 

No quarto, o colchão caiu de repente sobre o aquecedor, o que provocou o início das chamas.  Em questão de segundos, as chamas se espalharam pelo quarto.

 

Em um estado de desespero, procurei extintores para apagar o fogo. Todos os tubos estavam descarregados.

 

A única opção que consegui foi abrir a janela e jogar o colchão em chamas para fora do apartamento.

 

Quando puxei o colchão, senti uma dor forte nos braços e, ao pressioná-lo contra o parapeito da janela, percebi que tinha cometido um erro. A primeira rajada de ar que entrou pela janela aberta fez o colchão, extremamente inflamável, detonar.

 

Os bombeiros chegaram em menos de dez minutos. Comecei a combater as chamas ao mesmo tempo em que tentava retirar o mobiliário da sala e os documentos que estavam guardados nos armários, quando um morador do edifício vizinho percebeu os sinais das minhas queimaduras à mostra. 

 

O fogo, a água e a fumaça arruinaram completamente o apartamento. Recebi atendimento em um hospital, onde fui direcionado ao setor de queimados. Quatro meses de recuperação e mais ou menos um ano para voltar ao normal.

 

A narrativa continuou a se desenvolver. Um mês depois do incêndio, meu pai me levou para ver como o apartamento havia ficado.

 

Ficou uma espécie de bola queimada no quarto. No interior, todas as roupas da criança estavam intactas, sem qualquer indício de terem sido queimadas. 

 

Meu pai ficou boquiaberto: as roupas da criança eram as únicas coisas que sobravam do fogo. 

 

A minha avó, que era benzedeira e já tinha dado o alerta sobre o perigo de imitar o uivo do cachorro, explicou que as roupas não pegaram fogo porque a criança era inocente.

 

Existem pessoas que não acreditarão no que está escrito até o final.  Alguns poderão achar que certos aspectos foram ampliados. Posso garantir a vocês que isso realmente aconteceu. 

 

Testemunhal do bebê(meu filho) que escapou do incêndio que consumiu tudo no inverno de 1983 porque estava na casa da minha vó. Quando eu era apenas um bebê, se estivesse lá o fogo poderia ter me consumido.

 

Meu pai reconstruiu toda a sua existência a partir daquele episódio que quase o destruiu. Portanto, ele transformou as cinzas do apartamento em nosso novo lar. A partir de julho daquele ano, meu pai não voltou a uivar. De maneira alguma.

 

Quando estamos em dúvida, é sempre melhor não correr riscos.

 

Autores: Ulisses Duarte(Filho) e Sidnei Duarte(pai).

 

 

 
 
 

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