O DIA QUE O HUMORISTA PERDEU A GRAÇA!!!

Em meados dos anos 70, organizamos um importante evento corporativo em um hotel na serra gaúcha. Um humorista de elevado reconhecimento em todo o país foi contratado para a cerimônia de abertura.
O cliente persistia na contratação daquele humorista específico. Como coordenador do evento, estive próximo ao humorista quando o artista chegou à cidade e o observei nos bastidores. Ao pisar no palco, o comediante começou sua apresentação bem animado. O público, nas primeiras piadas e esquetes, observava silenciosamente. Depois de dez minutos de espetáculo, o público permanecia sem dar um sinal de ânimo. Sorrisos raros, sem gargalhadas ou aplausos.
O artista fez de tudo, trocou o tema das piadas, mudou o foco do humor, deixou da política nacional e foi para alguns fatos do noticiário. Para mim, de maneira pessoal, o espetáculo continuava excelente. O público continuava a ignorá-lo.
Aos poucos, o comediante começou a perder o seu próprio charme. Durante o intervalo da apresentação, ele me abordou de forma discreta e expressou que não poderia realizar a segunda parte do que havia planejado. Ele acreditava que sua apresentação não tinha agradado ao público. Eu compreendo o seu ponto, porque realmente essa situação singular derrubaria qualquer artista.
O comediante apenas voltou ao palco para se despedir rapidamente do público e o mestre de cerimônias comunicou encerrada a abertura. Depois iniciaram início à longa programação científica.
Como havia sido combinado, esperei o comediante na saída do evento e a condução para outro local onde ele estava hospedado. No carro, ele não pronunciou uma palavra, tamanha era a decepção que levava consigo.
Retornei ao hotel onde o evento estava sendo realizado e perguntei ao cliente sobre o que havia ocorrido. Ele ficou sem resposta.
Naquele mesmo dia, percebi que havia muitos palestrantes de países vizinhos. Mais da metade dos congressistas era argentino. Nas salas de palestras, havia tradução simultânea, o que facilitava a compreensão entre os participantes das variadas mesas que ocorriam. Menos, ao iniciar o evento.
Compreendi tudo naquele momento: o fracasso do humorista estava relacionado à limitação linguística e à dificuldade de contextualizar as piadas que se referiam aos temas comuns da nossa cultura nacional.
A minoria brasileira, durante a apresentação do humorista, ao perceber que o público geral não reagia, sentiu-se acanhada com a atmosfera silenciosa da apresentação, e apenas esboçou alguns silenciosos sorrisos, controlando suas reações espontâneas.
Foi uma grande lição que tive sobre como uma divergência cultural, somada à dificuldade de tradução entre idiomas, pode levar à queda dos melhores artistas que, acima de tudo, desejam satisfazer seu público.
Na próxima manhã de manhã, tive uma conversa com o humorista no café, antes de levá-lo ao aeroporto. Eu revelei a ele tudo o que havia descoberto sobre a razão pela qual ele havia encontrado um público pouco receptivo em sua apresentação do dia anterior. Ele me escutou com atenção, agradeceu pela explicação e voltou para sua região natal.
CLARAMENTE, MUITO MAIS DESCANSADO DO QUE NA NOITE ANTERIOR.
Autor: Sidnei Duarte




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