A VIDA NÃO TEM REPLAY!
Atualizado: 21 de set.

Estava andando no meu carro rumo a um endereço, quando visualizei uma senhora caminhando com dificuldade e carregando duas sacolas de compras. Parei o carro baixei o vidro do carona e perguntei:
- Para onde a senhora está indo? Posso ajudar?
Ela, de pronto, respondeu:
- Não precisa... Estou em indo para minha casa. É aqui bem pertinho.
- Vi que a senhora está com dificuldade de caminhar.
- Tenho muitos problemas de saúde mas não posso me entregar.
- Mas a senhora pode caminhar com dificuldade e fazer todos os afazeres de sua casa?
- Quando a idade avança fica cada vez mais difícil. Fiz muito nessa vida. Agora não posso mais. Hoje são meus filhos que tomam conta de tudo.
- Bem, sendo assim a senhora está bem amparada – tentei dar a impressão de que as coisas não iam tão mal assim.
- É, estou. Mas sei que o meu tempo está encurtando. Como eu gostaria de voltar no tempo em que tudo era possível.
- Pois é. Mas chega um momento que não dá mais. A senhora entendeu? – Questionei-a sobre como encara de frente suas limitações.
- Mais ou menos. Meu sonho é ficar mais um tempo por aqui para cuidar da minha casa, ver os meus filhos, netos e demais parentes.
- Mas isso será possível agora ou mais tarde. Vai depender de sua recuperação. Está disposta a enfrentar o que vem pela frente?
Ela respirou fundo, colocou a mão no peito e disse:
- Jamais me curvaria as necessidades que a vida está me propondo. Sou uma senhora de fibra. Fiz o que achei que deveria fazer, às vezes de forma errada, outras muitas vezes acertada. Fez uma breve pausa para recuperar o fôlego e continuou:
- Dei o que poderia ter dado. Os filhos me deram muitas alegrias de todas as maneiras. Lembro que seus uniformes escolares eram sempre impecáveis. Isso para mim foi ápice de satisfação. Isso indicava que eles seguiriam o caminho do bem. Depois rumaram cada um para o seu destino. Eles sempre foram felizes.
- E, agora, minha senhora? Tive uma sensação de imediata empatia por aquela senhora.
- Procurei fazer a minha parte junto ao meu falecido marido de alguma forma. Fomos felizes. Ambos meus filhos seguiram as suas carreiras, meus netos também. Faltaram apenas poucas coisas.
Fiquei admirado com aquela demonstração de calma, coragem e resiliência daquela senhora em relação à vida, e fiz mais uma pergunta:
- O que senhora pensa na sua longevidade e desejaria retornar ao passado que deve ter sido bom demais?
Ela balbuciou as últimas palavras, como se fosse uma lição de vida contada ali naquela longa conversa:
- Não, meu senhor. Agora estou num momento diferente. Tive a honra de viver e sentir o que senti, amei o que tive de amar, fui feliz como deveria ser.
Antes de se afastar com o carro e voltar ao meu rumo a senhora me indicou o caminho mais curto para o meu destino e disse, não esqueça da oração de fé e esperança:
- Se eu tiver que partir, não sei bem o dia. Mas saiba que irei com o dever cumprido.
E, antes de ir embora, ela me acenou e finalizou aquela proveitosa conversa:
- Senhor, pode ir porque eu sei onde fica a minha atual e futura casa.
Autor: Seu filho Sidnei Duarte
Revisor: Ulisses Correa Duarte




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