A PRISÃO PARECIA INEVITÁVEL
Atualizado: 6 de ago.

O relógio indicava a meia-noite. Era sábado. O silêncio na vizinhança foi quebrado pelo barulho do motor de um carro; ele parou em frente ao prédio. Sentado no sofá da sala, eu assistia a um filme qualquer de ação na televisão. Olhei pela fresta da janela do meu andar. Notei uma situação estranha. O motorista do carro, sozinho, estava debruçado no volante.
Pensei, “isso deve ter sido um assalto”. Levantei-me, não poderia deixar de ajudar. Busquei minha arma no quarto, desci as escadas internas do prédio até o acesso à rua. Ao chegar no portão externo, um vizinho abriu a sua persiana e perguntou o que estava acontecendo naquele início de madrugada. Ao verificar o carro parado em frente ao prédio e notar que o motorista parecia desfalecido, meu vizinho ouviu meu breve relato daquela situação. Resolveu descer para dar apoio.
Eu mal o conhecia. Acreditava que meu vizinho trabalhava em uma revendedora de carros, já que constantemente ele aparecia na garagem do prédio com os mais variados novos modelos de automóveis. Ele chegou até a calçada em poucos instantes, portando uma arma de alto calibre que parecia um canhão de tão pujante. Demos à volta no carro e nos certificamos que ele ainda estava ligado; o motorista ainda estava bem vivo. Tomei a iniciativa de empurrar o desconhecido para o encosto do banco. Ele tentou balbuciar alguma coisa incompreensível. Notamos que o cidadão estava completamente embriagado.
Meu vizinho estava convencido de que não poderíamos deixar aquele homem ir embora daquele jeito. Era a melhor medida de segurança contra possíveis acidentes: barrá-lo. Eu desliguei o carro e decidi retirar a chave do veículo. No momento em que eu mexia no volante do automóvel, atravessado na pista, uma viatura da polícia militar se aproximou e deu de frente com aquela cena: dois homens armados mexendo num carro e um motorista desalinhado no banco da frente.
Devem imaginar o que aconteceu. Os policiais frearam a viatura, protegendo-se de nossa linha de tiro. Miraram suas armas de fogo contra a nossa imprudência.
- Largem as armas, afastem-se! – os policiais exigiram nossa rendição.
Cumprimos as ordens dos homens fardados.
Eles se aproximaram da cena. O motorista alcoolizado ficou bem mais lúcido ao notar a presença dos representantes da lei.
Os policiais perguntaram ao motorista o que estava acontecendo. E ele dedurou:- Estou sendo assaltado por eles! – gaguejou.
Pensei, “eu podia estar em casa bem tranquilo assistindo meu filme”.Tentamos explicar aos policiais o que estava acontecendo, e que tudo aquilo se tratava de um grande engano.
Os policiais pediram mais informações ao homem bêbado, e eles logo perceberam que o motorista não estava bem. Solicitaram os documentos de todos envolvidos naquela confusão.
Para a nossa surpresa, o motorista apresentou a sua identificação.
- Sou policial civil – ele se orgulhou.
Olhei para o meu vizinho e sentenciei:
- Estamos encrencados! Vamos ser presos.
O vizinho não se abateu com aquela infeliz descoberta. Começou a discutir com os policiais militares, argumentando que o motorista, mesmo que policial civil, era um tremendo irresponsável por trafegar completamente alcoolizado.
Temi, “a situação vai sujar de vez para gente”. O vizinho contestava em altos brados, xingando o motorista do carro, até o policial se irritar e mandá-lo calar a boca. O policial repetia:
- Vocês serão presos.
Achei que tudo estava perdido.
O vizinho, ainda mais atrevido, pediu para o policial repetir o que ele havia dito em ameaça. E o policial arrematou:
- Vocês serão presos. CALEM A BOCA!
Nossa situação ficou ainda mais dramática. Já nos imaginava algemados, jogados no banco de trás da viatura, com destino ao xilindró mais próximo da região.
Eu tentei insistir:
- Somos moradores do prédio da frente – os policiais nem nos ouviam.Com a gritaria, os vizinhos do prédio abriram suas janelas de frente para rua e tentaram nos ajudar, informando aos policiais que éramos moradores do edifício.
Os policiais sequer davam importância aos apelos fúteis. Estavam decididos a nos prender.
Foi então que o vizinho se identificou:
- Vamos acabar com esta palhaçada – e tirou do bolso uma carteira de couro.
Segurou a aba de um lado e abriu o medalhão dourado em frente aos policiais militares.
- Sou Polícia Federal – Foi ali que eu entendi porque notávamos tantas trocas de carros seguidas, uma eficiente medida para manter sua segurança pessoal.
O peso que sentia nas minhas costas desapareceu. O vizinho ordenou aos policiais a cumprirem seus procedimentos padrões, chamarem o Oficial de Dia - o Comandante daquela unidade no turno - e pegou de volta nossas armas. Agora, eu me via autorizado a questionar. Resmunguei e cobrei dos policiais melhor tratamento. Eles baixaram o tom do discurso e pediram desculpas.
O oficial superior logo apareceu. Meu vizinho explicou o ocorrido e requisitou a prisão do policial civil bêbado e o guincho para o carro. O que aconteceu.
A ocorrência foi lavrada com rigor. Agradeci ao meu vizinho pela ajuda, e voltei para casa. Sentei no sofá da sala novamente, e ainda consegui assistir a parte final daquele filme, com a morte do protagonista. Relembrei tudo que eu havia vivido há pouco tempo.
A prisão parecia inevitável, até que a situação mudou de lado!
Na vida real, foi um final foi feliz.
Autor: SIDNEI DUARTE
Relator: ULISSES DUARTE




Comentários