A PORTA ENTREABERTA

Duas e meia da madrugada. Pedro escutou um ruído brusco e pouco comum na vizinhança, que era bastante silenciosa no meio rural. Interrompeu o sono e calculou que o barulho que vinha do lado de fora de sua casa. Acordou.
Pedro, tentando compreender, se levantou da cama. Morava sozinho há muitos anos naquela casa um tanto distante da cidade mais próxima. A estrada de acesso estava completamente bloqueada por conta da forte chuva que caía, sem trégua, há mais de uma semana. O ruído alto, como se fosse a chegada de uma charrete de cavalos, se repetiu em maior intensidade.
Levantou-se da cama e atravessou o interior escuro da casa, escorando-se pela parede até chegar à janela que ficava ao lado da porta. Enfiou os olhos entre as frestas para tentar entender o que se passava. Estava totalmente escuro lá fora. A chuva embaçara o vidro da janela, sua visão do exterior era turva. Desconfiado, gritou:
- Quem está aí?
A falta de resposta gerou uma sensação de estranheza e grande apreensão. Pensou em agir, mas ainda não sabia como. Percebeu que a porta estava entreaberta. Puxou a maçaneta e abriu um vão maior para a rua. Entrou um vento gelado e um pouco de luminosidade do poste público da estradinha. Não havia nada do lado de fora.
Pedro recuou alguns passos, sentiu seu coração acelerar de forma brusca. Jurava ter trancado a porta antes de deitar. Observou seu reflexo no antigo espelho pendurado na parede oposta à saída. Foi aí que o pavor o tomou por completo. O reflexo no espelho refletia ele e o vulto de outra pessoa. Um homem de idade, com uma bengala de madeira e enrolado num sobretudo pesado de lã. Num movimento lento, o velho colocou sua mão gelada em seu ombro.
Com gestos calmos e bem calculados, aquele estranho balbuciou alguma coisa próximo ao seu ouvido, com uma voz que soava tétrica como a tempestade daquela madrugada:
- Não tenha medo, meu filho. Não venho para fazer mal algum. Notei que a porta estava apenas entreaberta, e fiquei preocupado, pois poderia ser um assalto ou alguém que estivesse precisando de ajuda. Peço desculpas se te causei medo. Vou seguir meu caminho.
O homem idoso virou-se e seguiu para fora da casa sem dizer mais nada.
Pedro imediatamente fechou a porta, assegurando-se que a porta estava agora trancada. Em seguida, deitou-se na cama pensando no que tinha acontecido e demorou muito para dormir.
Essa noite jamais foi esquecida. Acordou no meio da manhã e, ao se levantar, percebeu mais uma vez que a porta estava entreaberta.
Autor: Sidnei Duarte
Revisor: Ulisses Duarte - (Agradeço a participação desse nobre escritor)




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