QUANDO TUDO PARECIA O FIM
- contosdosidao
- 21 de jul. de 2025
- 8 min de leitura

Dou conselho não porque sou mais inteligente do que os outros, somente
porque errei demais.
“PARA INICIAR, SOU AGRADECIDO PELAS COISAS BOAS
QUE FILHOS, IRMÃO, COMPANHEIRA
FIZERAM DURANTE A MINHA INTERNAÇÃO”.
PARTE 1
O conto que venho dissertar pode servir para muitas pessoas. Darão ouvidos apenas aqueles que passaram ou passarão pela mesma situação.
A minha família já foi composta pelos meus pais, meu irmão, duas esposas e cinco sobrinhos. Meu pai faleceu há muitos anos ficando minha mãe, seus dois filhos, sobrinhos e esposas. Com passar dos anos, por vários motivos, os dois irmãos se divorciaram de suas esposas.
Acontece que minha mãe, com a idade avançada, necessitava de cuidados especiais. Com a perda do pai tempos antes, eu não queria passar por situações semelhantes. Nesse meio tempo conquistei e fui conquistado por uma mulher que é a minha atual companheira.
Conversei com meu irmão e entendi que precisava estar presente junto à minha mãe. Como a situação não era muito satisfatória com a minha companheira, fui cuidar dela. A casa de minha mãe era muito antiga e precisava de muitos reparos. Decidi, para a sua felicidade, construir uma nova casa no mesmo lugar: comprei novos móveis, eletroeletrônicos e eletrodomésticos. O resultado da obra ficou bom. Eu senti a sua alegria. No entanto, ela não poderia mais morar sozinha e resolvi assumi-la independente de qualquer situação positiva ou negativa.
Foram vários anos cuidando dela. A princípio, tinha somente um problema de coluna em decorrência da sua idade. Aos poucos, sinais de doenças começaram a surgir, inclusive uma ferida na perna que não curava, independente das orientações de vários médicos. Continuava 24 horas a cuidar dela e da casa 24 horas por dia. Num dado momento, os médicos aconselharam interná-la num hospital para vários exames. Nada foi constatado. Uma nova recaída a fez retornar ao hospital. Algum tempo depois, teve alta. Com as novas condições de locomoção, e as demais necessidades, ficou impraticável cuidar dela sozinho. Prospectei uma clínica geriátrica perto de casa onde houve a concordância do meu irmão. A vantagem é que tinha todo apoio de enfermeiras, alimentação e demais necessidades. Consegui convencê-la e, na nossa casa, fiquei junto ao meu cãozinho “Dudu”.
Visitava-a diariamente. Com o tempo, senti que ela não tinha a mesma alegria. Em uma noite fui chamado à clínica em razão de que ela não estava passando bem. Levei-a imediatamente ao hospital Conceição. Nos seguintes dias, notei que ela não estava mais me reconhecendo. Fiquei muito triste. Em resumo, ela teve alta do hospital e retornou para a clínica. Alguns dias depois teve que retornar novamente ao Hospital Conceição.
No dia a dia ela estava esmorecendo e eu fiquei muito preocupado. Retornando para casa, como forma de aliviar aquele sentimento, aumentei a dose com bebida alcoólica. Eu era consumidor há muitos anos de álcool. E assim se sucedeu nos dias subsequentes para manter aquele alívio imaginário. Ajudou. No entanto, a quantidade foi maior e desproporcional. Nesse meio tempo, tropeçava e caía por estar alcoolizado e já não conseguia administrar a depressão em razão dos acontecimentos. Numa das últimas visitas, o médico que estava tratando minha mãe me chamou no corredor do hospital, e disse:
- Fizemos todos os exames e tua mãe a princípio não tem nenhuma doença. A ferida da perna que não cura é devido à idade avançada. Ela está com o coração fraco. O que podemos fazer é medicar. Quero lhe preparar porque, infelizmente, ela vai apagar a qualquer momento. Pode ocorrer em alguns dias ou semanas, mas vai ocorrer.
Escorreguei pela parede e sentei no chão. Pensei que não seria possível isso acontecer. Retornei para casa, meio sem rumo, e continuei a aliviar a dor, a depressão e o sentimento com álcool. E assim ocorreu nos dias seguintes.
PARTE 2
Foi quando numa noite fui chamado às pressas ao hospital e ao chegar ao quarto a cama estava vazia. Uma atendente perguntou se quem eu estava procurando seria a dona Malvina. Fiz sinal afirmativo. Pois ela está no subsolo, ela respondeu. “Pra bom entendedor, meia palavra basta”.
Era o fim. Minha mãe havia falecido e todo aquele esforço realizado ruiu como se fosse um castelo de areia. O atendente no subsolo perguntou se eu queria reconhecer o corpo. Imediatamente neguei. Queria guardar a imagem dos bons momentos que vivemos juntos.
Agora a história tinha acabado, ela embarcou no trem da eternidade e certamente encontrou seus amores.
Nessa noite sem sono chorei muito e bebi muito mais. No dia seguinte, falei com meu irmão sobre o ocorrido e o mesmo deu total apoio tanto na clínica como no velório. Algumas fotos em que fiquei caído no chão bêbado foram enviadas para os meus filhos ou companheira, apresentado o estado deplorável em que me encontrava.
Eles, em comum acordo (filhos e companheira), entenderam que eu estava correndo grande risco de vida, quer seja pela bebida, sentimento ou depressão que me assolava. Chegaram à conclusão que deveria ser internado em uma clínica de tratamento.
PARTE 3
Fui sentenciado a 3 meses de internação na esperança que cessasse o que vinha ocorrendo. Lá pelas tantas, ampliaram desnecessariamente para mais 1 mês, somando 4 meses de internação.
Sem ter conhecimento e, como passe de mágica, estava dentro de uma clínica. Indignado no primeiro dia, tentei sair de forma não convencional.
Nos dias seguintes comecei a entender aonde estava e quem era os meus parceiros internos. Todos tinham problemas principalmente com NA (Narcóticos anônimos) e AA (Alcoolistas anônimos), mas não parava por aí. Também tinha internos com desvios mentais, drogados de todas as espécies, assaltantes de banco, pessoas e casas, crimes Maria da Penha, etc. Uma verdadeira escola do mal. Lá estava eu perplexo com tudo que estava vendo, loucuras, espancamentos os quais eu contei uma dezena. Foram de tirar o fôlego.
A tal clínica parecia igual a uma cadeia sem possibilidade de fuga ou direito de reclamação.
PARTE 4
Por outro lado, lá estava eu sem casa, dinheiro, e o telefone celular negado pela minha companheira, o que até hoje não entendi.
As mensalidades da clínica, segundo informado, foram quitadas sem a minha interferência. Tive um dente quebrado na clínica em função de que somente ofereciam colher para as refeições, nada de garfo e faca, para não termos o risco de usá-los em situações perigosas. Por enquanto, ninguém se ofereceu para pagar o dente que não foi por minha culpa, mas pelas condições oferecidas. Então, tirando as mensalidades da clínica, só tive decepções e prejuízos.
Lá pelas tantas fiquei sabendo que o meu cachorrinho/companheiro tinha sido transferido para outra casa que desconheço a localização.
Enfim, a minha casa estava praticamente abandonada, mesmo que minha filha tenha ajudado na organização e limpeza antes dos 4 meses de internação.
A tristeza e o desespero eram grandes. Não tinha mais nada. Queria ser diferente e melhor aos demais e assim me mantive. Era o mais velho dos internos e, após um mês, comecei a ser considerado o melhor em todos os sentidos.
PARTE 5
Conheci apenas três pessoas sensacionais. Com eles, diariamente trocávamos ideias, conselhos, e um confortava os outros para não se sentirem esquecidos pelas famílias alimentando o sonho de que em pouco tempo estariam de volta aos seus lares limpos e sem recaídas. (MESMO COM TUDO QUE TENHAM FEITO É DURO VER AS LÁGRIMAS ESCORREREM DE SEUS OLHOS).
No dia 5 de março, meu aniversário, a diretoria da clínica reuniu todos os internados para cantar feliz aniversário. Momento que recebi um bolo com velinhas indicando a minha idade. A foto a seguir foi tirada pelos internos antes da homenagem.

Um dos diretores fez um excelente comentário sobre a minha pessoa e me colocou como um privilegiado pela minha educação, participação nas reuniões e apoio aos mais necessitados.
Já fui militar, mas nunca tinha passado por nada parecido. O café da manhã só tinha um pão simples com margarina ou mortadela. No almoço era servido um prato com comida fria com feijão, arroz e pedaço de galinha com osso ou massa parafuso, sem carne bovina. No café da tarde era refresco e pão com chimia. No jantar, servido às 20 horas, a mesma situação. Em alguns dias, serviam miúdos de frango (fígado).
O medicamento prescrito pelo psiquiatra para cada detento era administrado em três ocasiões: manhã, tarde e noite. No segundo mês, o meu medicamento somente era administrado pela manhã para a regulação do humor. O banho era determinado para às 16h30min. E o recolhimento para dormir, chamado de AMÉM (oração), acontecia às 22 horas. O amanhecer era às 7 horas.
Esses horários determinados se modificavam em dias livres de atividades (terças, quintas, sábados e domingos), passando o AMÉM para às 23 horas e o amanhecer às 9 horas.
As reuniões aconteciam três vezes ao dia (nas segundas, quartas e sextas-feiras) às 10 horas, 15 horas e 21 horas. Algumas reuniões eram interessantes: COMO EVITAR A RECAÍDA, CABECEIRA DE MESA, 12 PASSOS e FILHOS DE DEUS entre outras. Também tinha a LABORATERAPIA, diariamente, onde os internos faziam a limpeza geral da clínica e a cozinha era coordenada também pelos internos.
Os internos tinham direito, todos os dias, a encomendar mercadorias do supermercado e tabacaria. Assim, dois monitores saiam com essa missão. O pagamento tinha que ser imediato para qualquer coisa, inclusive lanches.
PARTE 6
Por meu bom desempenho, ao cumprir o meu ciclo de detenção, fui homenageado e convidado para ser palestrante e participar dos eventos diferenciados, em especial, a atividade: “COMO EVITAR A RECAÍDA”.
Retornei para a casa onde moro sozinho. Recebi da minha companheira minhas chaves de casa, carro, cartões de banco, celular, menos o meu cãozinho parceiro. Imediatamente iniciei uma varredura na casa até então abandonada com várias limpezas, modificações de todas as formas, dando novo modelo e conforto para a casa que está ficando sem igual.
Ainda falta a devolução do meu companheiro que, no momento, me deixa muito triste. Não entendo o porquê. Talvez por falta de compreensão, apoio, ou receio de recaída, o que é praticamente improvável.
Minha filha mora e trabalha na Irlanda, meu filho no Rio de Janeiro, meu irmão no litoral norte gaúcho e somente a minha companheira que mora na minha cidade, e me visita somente aos domingos na hora do almoço.
PARTE 7
Nas minhas palestras friso que estar ali na clínica é ruim demais. Lá fora vão contar com os questionamentos e as indiferenças do tipo: “Você não vai mais consumir isso ou aquilo”. “Vai parar né”. “Nunca mais vai consumir essas drogas”. É uma verdadeira tortura ouvir isso ou algo parecido em todos os contatos familiares dia após dia. E a indiferença daqueles que não sabem de nada ou muito pouco.
Façam tudo certo e sem o menor motivo de questionamento para evitar essa situação constrangedora e marcante para o resto da vida.
Para algumas pessoas que conheço, gostaria que passassem por essa experiência.
Sou uma pessoa simples, correta, sem nenhuma participação com relação às demais drogas que, nos nossos e novos tempos, estão assolando e perto de nós do que podemos imaginar.
Tenho o seguinte lema:
NÃO TENHO O PODER DE MUDAR O VENTO,
MAS POSSO AJUSTAR AS VELAS.
AJUSTEM AS VELAS ANTES QUE SEJA TARDE DEMAIS
PARA FINALIZAR:

Texto de:
Sidnei Oscar Duarte
Revisor:
Ulisses Correa Duarte
Porto Alegre, 16 de julho de 2025.




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